Time Line

large

O rio Negro

Nas águas tranquilas e frias do Amazonas se escondia uma criatura de alma vivente tão misteriosa e incomparável como eu e você agora. Essa criatura, um ser muito inteligente e inquietante. De feições calmas e misteriosas, olhos doces de profundo negro que revelavam a chama de seus segredos. Um animal tão feroz quanto simpático, acolhedor e formidavelmente encantador! Pois é difícil acreditar que uma criatura tão dócil e aparentemente amorosa poderia revelar-se algo tão inexplicável, tão sanguinário e devastador. Um ser cego pelo próprio desejo, o coração de um homem renegado e consumido pela sombra de seu próprio martírio que era ser o que era não por que a natureza quis assim, mais porque ele se deixou vencer por um desejo superior a sua raça a sua realidade abstrata ao seu doce eu descompensado em homem e animal. Onde numa intensa tortura não se conhecia mais em suas noites de solidão. Era como ouvir uma triste canção entoada no vento quando observava as estrelas em suas águas de descontentamento, o que era aquilo? Não possuía controle sobre suas nadadeiras, sua calda era como um metal pesado que o fizesse sentir dor remexendo seu corpo para traz e para frente, que mistério guardava os céus que acima que o fitavam? Dificilmente se encontrava em seu estado normal, já tão isolado não reconhecia mais nada nem ninguém. Sentia-se frio sem argumentos para viver se via numa constante insanidade ao nadar para cada canto do rio desnorteado. Como descrever este ser? Ele provavelmente é algo tão fora de tais categorias que se fez enquadrar. Pois sem haver como descrever apenas tentarei explicar como naquela noite perdido em meio às águas da bela floresta amazônica ele observava as estrelas e sentia grande melancolia, enquanto engolia o ultimo pedaço do peixe já sem sabor que ele pegara para alimentar seu corpo que não mais pedia por peixes, mais sim por um sangue atordoado como o dele e não inocente e rustico como o de um mero peixe, que por desventura se atrevia a não evitar cruzar o caminho daquela criatura tão decaída a vontades sórdidas. Então o seu sangue passou a correr em suas veias de forma rápida, tão rápida que seu coração pulsava fortemente e desesperadamente. Ele passou a gritar internamente por uma salvação daquela forma tão inocente que ele se apresentava as águas negras agora… Seu corpo de inocente criatura como era conhecido apelava às águas negras da floresta por uma segunda chance. A floresta apenas se sentia triste e cada animal arvore e planta podia sentir aquela vibração de pura psicose, loucura, insanidade e até mesmo raiva! Ele trasbordava sua existência insignificante que deturpava toda a pureza da selvageria da floresta. A floresta que não possuía um instinto como aquele de maldosa loucura. Até mesmo a lua se compadeceu daquela misera imagem que sofria atormentada e quando a nuvem que cobria a visão da lua se foi ela fitou o ser deturpado e junto com a piedade da floresta concedeu-o um corpo que ele pudesse sair daquele martírio infame. Foi assim que aquele simples e inexplicável Boto Rosa se corrompeu a sua própria insanidade e ganhou o prestígio de dentre os animais do rio se tornar a cada lua cheia uma criatura que o proporcionasse seus desejos particulares de maldade e crueldade que rondavam seu pérfido coração que se desconcertou no Rio Negro.
O vilarejo bonito e vivo perto daquele rio, tinha noite de festa e comemoração nas ruazinhas, pois a pesca ia bem e os lucros eram bons. As ruas estavam enfeitadas por peças indígenas homenageando os índios Mayoruna e havia o som de tambores e bombos. Muitos dos moradores se encontravam ao redor da grande fogueira contando histórias sobre a formação do pequeno vilarejo e de algumas tão costumeiras assombrações que alguns acreditavam rondar o lugar e outros explicavam de formas muito mais razoáveis. Havia um senhor de longa barba branca que fumava um cachimbo de fumaça estonteante á contar uma história.
– Há muito tempo que ela nos olha atenta. – Todos o olhavam para ele em uma longa respiração ao por o cachimbo na boca. Yacy, a guardiã da noite, há muitos anos uma índia, linda moça assim como minhas netas, era nova e cheia de vida. Mais uma noite observava seu reflexo no rio e se deparou com ela. Caindo numa profunda paixão ela clamou por muitas noites para que pudesse observa-la para sempre. Assim a Lua se encheu de piedade transformou a moça na planta do rio que se abri sempre a lua cheia para aprecia-la em seu lugar. A vitória Régia. Cuidado com seus pedidos a ela.
Seu Lucas já um dos mais velhos do lugar, chegara lá ainda criança e era conhecedor da floresta e seus mistérios. Ele possuía muita estima pelas três lindas netas que ele criou junto com sua esposa que falecera há dois anos. As meninas jovens e cheias de vida o escutavam juntamente com as outras pessoas e alguns rapazes que trocavam olhares. Seu Lucas tinha também muitos ciúmes e espantava todos os que se sujeitassem a cortejar uma das três. A mais nova de quinze anos se chamava Clara apelidada de Clarinha, tinha uma cintura de violão e pele branca, olhos escuros e cabelos negros de cachos esvoaçantes e brilhosos uma menina muito esperta para a sua idade, sua segunda irmã um pouco mais velha que ela de dezessete anos, mais não muito alta, possuía olhos castanhos e a pele mais escura cabelos igualmente pretos e brilhosos, porém muito lisos e um pouco mais curtos, costumava usar vestidinhos de cores vivas. Muito tímida e inocente não falava muito com os meninos e vivia sempre a ajudar o avô. Seu nome era Iraci, uma moça sonhadora e caseira. A terceira moça era bem diferente das outras, a mais velha de vinte anos. Era uma morena de corpo estonteante e perfeito de cabelos negros misturados a mechas mescladas de loiro e castanho claro, tinha um espirito aventureiro o qual nunca deixava em casa, sempre preocupava o avô e era contra suas ordens, seus olhos cor de mel conquistavam os corações dos rapazes do lugar facilmente os quais todos já conheciam a rigidez de Seu Lucas. Agatha tinha muito cuidado pelas irmãs apesar de ter um gênio forte.

Ele se encontrava em sua nova forma, na escuridão da mata sentia a água escorrer por sua face, deixava sem noção seu sorriso branco e exaltado como uma chama aparecer em seu rosto, um rosto que mostrava uma beleza incomparável mais que ele apenas sabia ter mais não a tinha realmente conhecido. Ele era belo de olhos, boca e nariz simétricos, cabelos estirados ao pálido rosto confortavam seu sorriso e escondiam a lua que havia em seus olhos. Aprendendo a comandar seus sentidos. Não conseguia enxergar nada mais se sentia forte, logo há lua mostrou o caminho e pôde ver suas mãos pela primeira vez, tocou os cabelos sentindo seu tamanho. Eram longos e aparentemente pretos, caminhou pelo lugar rindo como que conhecendo aquele novo som que emitia, logo percebeu que compreendia o poder da fala, e disse sua primeira palavra, “Yacy”. Compreendia seus pés, suas pernas e seu olfato. Passando então a perceber também o poder de sua audição. Ouvia o barulho dos animais na mata o vento nas águas e as vozes além de onde estava. No chão encontrou sua deixa, um chapéu velho e surrado tingido de negro o qual cobriu a cabeça escondendo entre o chapéu e os cabelos a única coisa que o denunciava no topo de sua cabeça! Então percebeu suas novas vestes e passou a caminhar em direção aos estranhos sons que logo sua mente se acostumou, as vozes dos seres humanos seu novo passa tempo.
Ele caminhou até as pessoas na fogueira fitando uma das moças, as pessoas olhavam – o curiosas, preocupadas. Quando de repente o misterioso homem caiu de joelhos em frente a todos e pediu um pouco de água. A moça a sua frente de olhos cor de mel se levantou rapidamente e colocou um copo em suas mãos. Logo o ajudaram a levantar-se e o puseram junto a todos ao redor da fogueira. Logo iniciaram um interrogatório sobre ele, o mais velho quis saber de imediato o seu nome e de onde vinha naqueles trajes tão diferenciados. O estranho homem usava um tipo de blusão preto, que se misturavam com seus longos cabelos. O chapéu surrado preto que escondia o brilho de seus olhos o deixando com um aspecto sombrio e intimidador. Ele estava descalço enquanto segurava na mão direita um par de coturnos.
– Eu não venho de longe, estou de passagem por algumas noites.
– E qual é seu nome? Não será bem vindo por muito tempo…
– Chamo-me Yacy. Não tenho problemas em não ser bem quisto!
– Quanta tolice! Alguém leve ele para comer e conhecer o lugar. – A moça de olhos cor de mel se ergueu e estendeu a mão para o diferente rapaz, enquanto o analisava de maneira inigualável. Deixando o avô observar a cena com a expressão de reprovação. O rapaz aceitou seu convite, levantou-se e a acompanhou pelos arredores do vilarejo de casas simples ambas amontoadas umas nas outras, com espaços cobertos pelas plantas e árvores que deixavam o lugar com um aspecto assustador. O local de mata fechada permitia que a lua transparecesse por entre alguns galhos de suas árvores e as estrelas se mostrassem em meio à clareira.
Ele a observava dos pés a cabeça, mantendo o olhar fixo nos seus olhos por segundos e se afastando logo. Ela o fazia milhares de perguntas enquanto as respostas vinham sem muita aproximação:
– Me conte o que faz aqui?
-Apenas venho de passagem, sou de um lugar muito diferente!
– Da pra notar, porque não tira esse chapéu?
– Porque não me convém.
– O que não te convém? Ela perguntou com o olhar de curiosidade.
– Tirar o chapéu ou continuar em um diálogo tão sem destino como esse a companhia de uma moça tão bela! – Ele falou sem olhar para ela e sem demonstrar muito interesse além de um elogio. Ele continuou enquanto se afastava um pouco e a deixava se perguntando o que havia com ele. – Eu poderia te contar muito sobre mim em um simples gesto se você o compreendesse. Eu estou fugindo de mim mesmo.
– Você pode me dizer tudo se quiser. Apenas poderia te chamar de louco, mais sinceramente… Quem não é louco, Também fujo de mim quando me encontro nas matas!
– Você poderia ser como eu, se você conhecesse o rio ao longo das matas…
– Mais eu conheço… Yacy.
– Muitas coisas existem entre o rio as matas, porém a maior magia está ainda mais longe de nós que se possa imaginar. Quando você não faz ideia do que pode haver até mesmo aqui na sua própria mente. – Ele levou a mão até a cabeça.
– Você não imagina como eu o entendo. – Eles continuavam a caminhar pela vila de aspecto sombrio e apocalíptico que se destacava pelas inúmeras peças da tribo dos Mayoruna que se mostravam postas sobre árvores e sobre as portas das casinhas. Havia postes de iluminação precária e alguns cachorros rabugentos que acompanhavam – nos. Um deles ao latir se esquivou ao ser pego pelo olhar de Yacy.
– Eu ainda não sei o seu nome.
– Agatha, sou Agatha por causa de meu pai, ele caminhava sempre com um colar de pedra Agatha que hoje é meu. Ela mostrou um colar em seu pescoço que levava uma pedra castroada.
– Agatha. – Ele repetiu o nome ao sentar-se em um velho tronco de madeira convidando-a a sentar-se. Ela sentou e os dois se entreolharam. O olhar dele era seco e duro enquanto dela uma janela aberta para sua alma que pedia por explicações.
Ele sentindo-se cada vez mais longe de encontrar seus objetivos, permitiu que seus sentimentos aflorassem e passou sentir novamente o instinto que clamava por sangue humano. Contanto que ele o derramasse por puro prazer. Em seu sorriso agora se encontrava um ar enigmático e seu olhar era devastador coberto de negro e nenhuma luz se via nele. O rosto belo se confundia com a paisagem ao redor. Agatha sentindo a atmosfera entre eles mudar resolveu dizer adeus a Yacy.
– Preciso ir!
-Posso te ver quando todos forem deitar?
– Só se você quiser saber mais sobre a história dos mayoru.
– Eu quero! Você pode vir me encontrar neste mesmo lugar?
– Sim… No em tanto você deve me contar a sua história. – Yacy acenou a cabeça com um sinal positivo e a permitiu ir. A menina se foi correndo enquanto o vestido balançava junto ao vento frio que se passava. Ainda era muito cedo a lua não alcançava seu ponto máximo, mais Yacy a observava e agradecia a ela pela sua nova forma enquanto deitava a cabeça no tronco caído. Ele continuou deitado se vendo naquele cenário que estranhamente combinava com o seu ego. Com a cabeça sobre as mãos e corpo despojado ao chão. O lugar de aparência mórbida apesar de ter um povo muito feliz e festeiro, possuía ruas sem calçamento arrodeadas por uma escuridão que vinha da mata que cobria as ruas, o barulho dos animais era como musica alta e os olhos não podiam enxergar o que se escondia além dos galhos enormes e cobertos de folhagens pesadas onde havia grilos e cigarras tão grandes quanto o seu canto. Ele calçava seus coturnos quando ela se aproximou junto a sua irmã. O boto se sentiu eufórico, abraçando-as demonstrou afeição e agora seu olhar se mostrava sedutor e possuía a lua.
Então eles se sentaram em um lugar mais afastado da clareira, onde a lua ainda era vista. Agatha trocou um olhar carinhoso com a irmã que estava insegura perto do estranho rapaz. O qual fora alertada a não falar, a mando da irmã desobedecia à ordem do avô. Clarinha carregava uma expressão medrosa enquanto era observada por Yacy e perguntou:
– Teu nome significa o nome dela, da lua por quê?
– Porque a minha mãe não foi capaz de me dar o que ela me deu.
-O que ela te deu?
– Ela me deu o que você pode ouvir e ver agora! Ela me deu de presente para mim mesmo!
A menina sem entender a resposta, apenas olhou para a irmã em gesto pidonho que queria dizer “quero ir para casa”. A irmã já se sentia mais próxima dele e não deu mais atenção a ela. Então Agatha fez uma pergunta.
– Você não que saber o motivo da festa?
– Sinceramente não me interessa nem um pouco, mais fico feliz em saber!
– Abú criou a terra, os céus as águas e os ventos e os matses eu e você, o homem. Mais ele se esqueceu de dizer o que os mayoruna podiam comer, então eles comiam terra, mais a terra era muito ruim. E eles comiam a terra pela manhã, pela tarde e por todo o momento da fome. Assim com o tempo os meninos passaram a chorar muito porque não gostavam de comer terra. Então apareceu o Mutum e perguntou por que mayoruna estava chorando, então ele mayoruna disse que Abú só dava terra para eles, então Mutum foi e chamou mayoruna pra ir na sua casa e ele foi, viajaram muitos dias e perto do Igarapé o Mutum disse aqui é bom de se morar e não é preciso comer mais terra. Logo conheceram a palmeira o milho e outras coisas boas para comer, mayoruna provou pupunha e não gostou, com raiva quis matar Mutum, mutum com medo subiu para uma árvore pediu a mayoruna para buscar barro, com o barro fez uma panela, mostrou a mayoruna o fogo e cozinhou a pupunha, mayoruna gostou e comeu. À noite Mayoruna de barriga cheia dormia e Mutum foi embora para sempre e mayoruna nunca mais comeu terra. – A história acabou Yacy a olhou e soltou uma bela gargalhada.
– Do que está rindo? Ela olhava com um sorriso irônico.
– Não posso dizer que é tão besta quanto parece, pois meu nome me denuncia!
– Se não gostou não posso fazer muito. – Clarinha caiu em sono profundo, o boto fitava Agatha que não entendia o motivo do sono da menina.
– Eu poderia te falar milhões de histórias sobre milhões de peixes e como se alimentam, poderia dizer tanto sobre as águas se houvesse tempo para mim mesmo. Mais só posso te mostrar como você bem entender. – Ele mostrava agora o poder que a lua o dera. Tocando na cintura da moça enquanto ela não se permitia ceder, ele a olhava ternamente mais uma vez com a lua nos olhos. A moça se deixando levar pela estranha sensação que sentia se entregou a ele. Aquela cena se estendeu por alguns minutos quando o beijo dele há invadia, um retrato de obscuridade se plantava quando as mãos dela tocaram a cabeça dele e ela sentiu um buraco. Mais já era tarde ele a possuiu e ao olhar dentro da alma da moça, a fez viajar para o rio de águas negras para que tivesse a sensação de morrer afogada. Mais apenas ele controlava a mente da pobre moça enquanto se apossava sem dó do jovem e belo corpo que agora defraudado pela tortura se mostrava uma poça de sangue derramado. Ele a esfaqueava enquanto a invadia sem pena. Seus gritos haviam sido calados pela ilusão do afogamento. Ele se sentia forte e cheio de desejos, a lua olhava tristemente o trabalho de sua magia desfigurada. A moça agora de olhos cor de mel, não mais possuía olhos e seus longos cabelos em cor de madeira agora haviam sido cortados e colocados dentro de sua boca ressecada e costurada. Em cada mão um olho, o corpo totalmente desfigurado foi colocado num saco jogado no rio.
A noite ainda avançava para seu ponto mais alto e ele ainda não se sentia totalmente fortalecido. Sentindo então o peso do poder da lua nas costas percebeu que logo seria tirado de seu posto poderoso de um bom lunático. Pela própria lua seria destruído quando ela no céu se mostrasse de novo. Ele não possuía nenhum pouco de remorso. Lembrou-se da mocinha que dormia e foi acorda-la.
– Onde está minha irmã?
– Ela foi para casa, mais não se preocupe tanto… – Ele a fitou docemente enquanto tocava seus cabelos, aconchegou a menina em um abraço.
– Você é estranho.
– E você é de uma beleza estonteante Clarinha… – Ela sorriu para ele mais ainda não cedia a seu encanto. A mocinha o fitou bem e viu em seus olhos a lua.
– Você tem a lua nos olhos… Você é como a vitória Régia, é como a índia da história.
– Não, não sou… Eu sou uma parte dela a parte que não vemos! Mais você, você pode ver em mim não é mesmo? Não tenha medo de mim Clarinha… Não tema um presente de Yacy para você!
-Você acha que é meu presente? Eu sempre sonhei com a lua, mais a lua nunca me deu nada!
– Agora estou aqui por mais difícil que seja para você, permita-me ser seu e permita-se ser minha!

Ela não mais cedeu, sem imaginar o que ela passaria depois daquilo. Não mais cedeu ao seu toque. Ele a entorpeceu em seus braços, fazendo-a se sentir nostálgica como que em um efeito alucinógeno ele entrava em sua mente, ele entrava em seu corpo. Sua mente era levada a uma dimensão de tortura enquanto ele se apoderava dela em segundos. A semente do boto teria que ser plantada, uma herança de Yacy tinha que ser deixada, ele havia escolhido alguém e era ela! A menina acordava despida de suas vestes ao lado do boto. Ela tentou fugir mais ele a segurou:
– Deixe-me ir… Está me assustando!
– Acha mesmo que te permitirei ir? Ao menos se vista e não saia como uma louca neste trapo que cobria nossos corpos! – Ela voltava a se lentamente, colocando novamente o vestido de um azul vivo ajoelhou-se sobre os pés dele chorando muito!
– Não chores assim minha querida, a noite é viva e é de festa. Volte para casa e espere meu chamado!
Ele beijou a face da criança sorrindo, ela viu o colar da irmã mais não perguntou nada apenas se foi rápido sem aguentar mais um minuto ali. Naquela mata escura e fria onde a lua não mais habitava! E onde havia ocorrido o enterro de uma criança e o nascimento de uma criança de sonhos destruídos. Ela se foi, Yacy observou o local, havia o sangue de uma criança no trapo no chão, a lua se cobria com as nuvens e ele sentiu seu tempo se esgotando. O dia veio e o boto precisou voltar ao rio negro. O vilarejo amanheceu em uma desordem a qual Seu Lucas estava totalmente cego de raiva pelo sumiço da neta. Ele quebrou a mesa de casa e correu pelo vilarejo desesperado. Plenas nove da manhã e nenhum sinal da neta em casa, a mais nova não dizia nada com nada, estava louca em sua cama e amarrada!
S. Lucas já muito atordoado parou em um lugar para fumar o cachimbo, outra senhora falava com ele, cabelos brancos e de estatura não muito alta se vestia com um vestido de magas longas cor verde. Ela falava:
– Logo ela aparecerá e você poderá ter uma explicação sobre o sumiço dela na noite adentro por essas matas. É uma jovem, já fomos assim um dia.
– Ouse ela me aparecer aqui… !
Ninguém sentia falta do viajante misterioso, quando ele àquela hora estava em seu mergulho para o verdadeiro corpo. De volta ao rio negro olhava tristemente as águas sem querer voltar. Mergulhou como homem e apenas a cauda foi vista na água a reaparecer. Enquanto a Clarinha, era ajudada pela irmã a se libertar das amarras que a prendiam em seu leito de loucura. Sua irmã do meio, que não demonstrava tanto afeto por ela, quanto Agatha em vida teve.
A noite caía no vilarejo de Catumbae, S. Lucas havia declarado que Agatha não mais ficaria em sua casa se ela voltasse. Agora caía em um sono preocupado na rede em frente à porta da casa. O boto retornava ao vilarejo, dessa vez ele buscou por um abrigo na casa das moças. Ele então percebeu o que fez. Havia um laço de sangue que o unia a aquela família. Ele se sentiu parte dela e com totais direitos.
– Eu preciso de um local para passar a noite. – Ele pediu ao senhor que estava deitado na rede de forma despojada e aflita.
– Eu não tenho espaço para você aqui, minha neta foi embora, mais continua sendo uma casa sem espaço! Não leve a mau filho da lua.
– Compreendo seu lado, mais eu poderia ao menos tomar um pouco de água? O senhor chamou uma das moças. – Clarinha traga água para esse rapaz a porta.
A menina pegou a água na cacimba e quando chegou à porta tomou um susto! Ficando atônita vendo o rapaz.
– Você, o que houve que você está aqui?
– Eu sou daqui como você é também.
-Seus olhos não têm mais a lua! – Ela entregou a água a ele e voltou para dentro cabisbaixa.
Ele levou a água até a boca, acompanhou-a com o olhar enquanto era interrogado:
– Já conhece minha neta?
-Sim, da fogueira ao seu lado… Bem vou indo, espero que sua neta esteja bem.
Ele saiu do local deixando o senhor fumando o cachimbo deitado na rede.

O boto se foi, observou a casa de longe enquanto as nuvens cobriam a lua. No galho de uma árvore alta ele balançava os pés enquanto com sua faca cortava o colar de Agatha. Quando viu que não havia mais luzes na casa ele encontrou a janela da ultima irmã. Iraci que chamava tanta atenção para enquanto dormia revestida de uma camisola branca. Ele jogou a pedra sobre a cama fazendo-a acordar.
– Agatha? Agatha eu sei que é você, o vovô quer te matar sabia?
– Vem aqui.
– Agatha? – Ela se levantou e foi até a janela, encontrou o rosto dele e quando pensou em gritar ele a calou com a mão.
– O que pensa que está fazendo?
– Me perdoe, não pude deixar de observar você dormindo, eu sei onde sua irmã está mais por que não me acompanha sobre a beleza da lua?
– Eu não poss… – Ela não pôde se negar a ir, pois a hipnose do boto havia fisgado sua mente. A lua nos olhos dele levou-a. Então ele a carregou pelo escuro vilarejo onde a noite se fazia rainha.
A menina nos braços dele se perdia, nem imaginava a tolice que fizera em ceder tão facilmente aos encantos dele. O boto sorria enquanto a tirava das vistas das ruas. Na mata a colocou no chão sobre o mesmo tapo que possuía o sangue da irmã. Sentados no chão eles trocavam olhares. Ela quis saber seu nome:
– Me chamo Yacy, venho do reflexo do céu!
– Yacy… Seu nome se parece com o meu me chamo Iraci, mais não sou o reflexo do céu e sim o reflexo de mim mesma neste lugar.
– O que quer dizer? Para mim aqui nem lá tem reflexo.
– Não há como te explicar. – Ele viu a preocupação da menina.
– Não se preocupe com sua irmã logo vai estar com ela novamente… – Ela não disse nada, apenas olhava profundamente os olhos dele enquanto acariciava a sua face. Ele a fisgou para se também. Rindo invadiu a mente dela e trazendo a imagem da irmã morta. A moça gritava mais já era tarde.
Ele roubava-lhe beijos de raiva, enquanto as lagrimas escorriam pelo rosto, ela estava amarrada no tronco de uma árvore. Ele a calou com uma pedra na boca desta vez. Não havia mais a lua em seus olhos, apenas a escuridão! Estremecendo a moça não aguentou e morreu nas primeiras vezes que a faca invadiu o profundo de seu coração. A morte a consumiu de olhos abertos.

Catumbae agora caia em sangue irmão! O boto deixou sua herança para o rio negro no ventre da jovem mocinha. Os corpos das irmãs depois de dias foram encontrados de forma deplorável. S. Lucas ao descobrir a gravidez da neta que enjoava de meia em meia hora, deu uma surra na menina que só escapou por piedade ao filho. A vida todos tinha mudado incluindo a do boto que pela lua foi criado e pela lua foi destruído. A lua o deu um presente e o tirou. Ele vagou por algumas noites na vila atrás de encontrar-se com a lua para pegar de volta o poder, mais nas noites de escuridão só encontrou paz no rio onde os outros botos o devoraram vivo. Pois a lua havia o dado sua sentença. Yacy deixou um filho que quando cresceu voltou ao rio e em um boto se transformou, levando o coração da mãe que morreu de desgosto por ter criado o filho do boto!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *